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Sustentabilidade, a palavra de ordem

Revista Nelore – Setembro 2011

Se a pecuária brasileira não garantir uma produção sustentável estará fadada ao descrédito e à falência.

Para um negócio ser sustentável ele precisa ser ecologicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito. Pensar em pecuária sustentável leva a refletir como os diferentes agentes econômicos se organizam para produzir e entregar ao consumidor final um produto de qualidade e ambientalmente correto. Com isso, compreender como novas práticas de produção sustentável são adotadas, incorporadas e contratadas ao longo da cadeia produtiva, se transformou em uma questão chave para se viabilizar a atividade no País.

Fato é que a bovinocultura de corte pode ser definida como a arte de transformar componentes vegetais em proteína animal. Sendo assim, este processo pode ser feito com maior ou menor impacto sobre o meio ambiente , em razão da eficiência do sistema utilizado pelo produtor. Nos últimos anos, a pecuária de corte tem sido alvo de inúmeras críticas por parte de ambientalistas. Os Fatores específicos que influem a sustentabilidade de uma propriedade são a lucratividade e o uso que ela faz dos recursos naturais. Para que a fazenda (ou a empresa rural) seja sustentável, em longo prezo, é necessário que além lucratividade, o manejo de recursos naturais como o solo e a água sejam considerados como pontos fundamentais do negócio.

Preocupação com o futuro

O criador Epaminondas de Andrade, da Fazenda Vale do Boi, há 40 anos dedicando-se à pecuária, afirma que a primeira coisa que o preocupa quando entra em uma propriedade rural, é o que ela tem pra ser utilizado e como ele pode melhorar o que já existe de bom. Andrade garante que todas as fazendas pelas quais já passou ficaram melhores do que quando nelas entrou. “A pecuária te estimula a pensar no futuro. Se não for assim, quatro ou cinco aos depois o produtor estará perdido”, admite.

O pecuarista diz que mesmo antes de se falar em sustentabilidade, quando o tema ainda não era “tão badalado” como é hoje, a maior parte dos pecuaristas sérios já se preocupava em como seria sua fazenda no futuro. “Ha 40 anos nem existia adubação de pastagens. O fazendeiro tinha de preservar aquilo ao seu redor , explorando menos e mantinha o pasto por mais tempo. Hoje, com os recursos técnicos existentes, pode-se explorar com mais intensidade, corrigir e adubar o solo. A coisa mais simples é ter um pasto melhor amanhã do que hoje”. Conhecedor da pecuária, seus problemas e soluções, ele adverte: “É impossível, contudo, ter um bom pasto se não preservar as nascentes e o solo, e permitir que a erosão domine a paisagem. Se não tomar todos esses cuidados não há tecnologia que garanta um bom pasto. Além disso, uma terra erodida, lavada, tem um custo altíssimo para ser recuperada”, garante.

Andrade conta que na sua fazenda havia muitas áreas degradadas, com erosões que poderiam esconder uma carreta. “A primeira coisa que fiz, antes mesmo de reformar os pastos, foi acabar com as erosões, impedindo que evoluíssem e tornar-se mais cara sua correção, além de aumentar os prejuízos que estavam causando para a natureza. Resolvida esta parte comecei a reformar as pastagens com correção e adubação do solo”, comenta. Com o solo desprotegido, qualquer chuva leva sua riqueza para o leito dos rios. “Não consigo conceber trabalhar a pecuária, a terra, sem pensar em seu futuro e, em última instância, no meu futuro. Quem faz diferente, se não está pagando uma conta alta por isso, pagará nos próximos tempos”, sentencia o criador.

Além de todos esses cuidados, Andrade ressalta a importância de se conscientizar todos aqueles que atuam dentro de uma fazenda. “Os que trabalham comigo já pensam como eu. Muitos dos meus empregados sabem que se não preservarem aquela arvorezinha que está crescendo, daqui a algum tempo eles podem precisar de uma sombra e não a terão. Nós que somos ruralistas temos de ter esses conceitos incrustados dentro da gente, como fundamento da nossa atividade”, admite o proprietário da Vale do Boi. Segundo ele, todas as casas de seus empregados têm árvores plantadas e jardins feitos. “Eu os estimulo e, muitas fezes, providencio a montagem do jardim. Isso é prazeroso”.

Quanto ao custo de todos esses cuidados, o fazendeiro garante que é mais caro recuperar o que já estragou. Arrumar leva milhares de horas de máquinas para cobrir, mudar e fazer voltar a fertilidade do solo. Não basta tapar o buraco com terra, afinal a natureza não se recompõe em um passe de mágica. Para ele, esse processo traz dois ingredientes importantes no resultado final: o econômico e o emocional. “Temos de aproveitar esse momento em que todos falam em sustentabilidade e fazê-la, não só pelo retorno econômico, mas pelo amor à natureza. Acaba tendo um troco, mas é bom chegar a um lugar onde tudo está preservado. Nem saberia medir o prazer que isso nos traz. Às vezes ele é maior que o financeiro”, conclui.

Na Fazenda Vale do Boi o solo é sagrado

Noticiário Tortuga Jun 1996

No norte do Tocantins tem uma fazenda que cuida da terra com o máximo rigor tecnológico. Tudo para as pastagens suportarem o dobro da lotação convencional.

A Fazenda Vale do Boi está localizada a 35Km de Araguaína, norte do estado de Tocantins. Adquirida em 1983 pelo pecuarista Epaminondas de Andrade e seu sócio Renato de Carvalho Gelli, a Vale do Boi tem investido com determinação na aplicação de modernas tecnologias.

Para cuidar da fazenda, onde mora, Epaminondas de Andrade conta cm sua esposa e dois filhos, Paulo Henrique e o zootecnista Ricardo José. Eles administram 5.500 hectares, divididos em mais de 160 pastos, os quais estão formados com as gramíneas colonião, tanzânia, brachiarão, tangola, tifton e as leguminosas puerária e o calopogonio.

Monocultura – Esta variedade de forragens faz parte do pensamento dos administradores da fazenda para não torná-la uma monocultura de capim, facilitando dessa forma o manejo dos bezerros e da tropa de cria e de serviço (equinos e muares). A formação e manutenção das pastagens é um constante desafio para a fazenda, que recebe adubações e correções regulares do solo. Com este trabalho a Vale do Boi quer aumentar seu suporte que atualmente é de 8 mil cabeças, sendo a maior parte de recria e engorda.

O rebanho de cria vem de destacando como um dos melhores do estado do Tocantins, sendo a produção de machos na maioria destinada para o mercado de touros com idade de dois anos. São 1.100 vacas nelore “cara limpa” e 350 vacas nelore PO, estas inseminadas com sêmen dos melhores touros das centrais. O objetivo com o rebanho de cria é atingir a auto-suficiência na reposição da fazenda, evitando assim possíveis doenças e diminuindo a idade de abate.

Mineral – O cruzamento industrial tem sido feito de forma experimental, mas os primeiros resultados já mostram-se satisfatórios com raças simental e limousin. As fêmeas F1 com idade de 15 a 16 meses tem entrado em reprodução com peso de 300kg e os machos foram abatidos aos 27 meses, com peso acima de 18 arrobas, com rendimento de carcaça de 53,4%. Todos em regime de pasto no brachiarão e mineralizados com Fosbovi20.

A Vale do Boi avalia que estes resultados foram possíveis não só pela heterose, mas também pelo potencial de suas matrizes nelore, que sofrem criteriosa seleção para peso, fertilidade e habilidade materna, sem deixar de lado os padrões raciais e conformação.

Descarte – O peso médio à desmama do ano passado foi de 176,4 kg para machos e 160,4 kg para fêmeas aos sete meses. Os machos para fazerem parte da reserva da fazenda devem pesar no mínimo 190 kg. As novilhas nelore tem entrado na estação de monta com 280 a 300 kg entre 20 e 24 meses e as vacas vazias ou que desmamam bezerros leves são automaticamente descartadas.

Cliente da Tortuga há mais de vinte anos, Epaminondas de Andrade, 59 anos, mineiro de Uberaba, não abre mão da tecnologia. Utilizando Fosbovi20 com bons resultados, a Vale do Boi experimentou Nutriprima na última estação seca, obtendo ganhos de até 36 kg em 90 dias (julho a setembro) para bezerros e bezerras desmamados.

Visitas – Criador líder na região e recebendo em sua fazenda constantes visitas de pecuaristas e técnicos, Epaminondas de Andrade adotou os procedimentos abaixo para ter seu rebanho sob eficiente controle zootécnico:

  • Todos os produtos nascidos na fazenda são tatuados com numeração sequencial de nascimento, carimbados com mês e ano na paleta esquerda, marcados e pesados à desmama;
  • Os produtos do rebanho nelore PO fazem parte do controle de desenvolvimento ponderal da ABCZ, sendo pesados de 3 em 3 meses até os 21 meses de idade.