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Touro Top ou Deca?

Iniciativa do PMGZ de classificar touros em Decas e não mais em Tops divide opiniões e reeducação do consumidor de genética parece ser a melhor saída.

(Foto: J. M. Matos)
Por Carolina Rodrigues

A mudança na metodologia de classificação dos animais participantes do Programa de Melhoramento Genético do Zebu (PMGZ) tem gerado debates frequentes, que recrudesceram em agosto, durante a Expogenética, em Uberaba, MG, quando o programa divulgou seu primeiro sumário de touros listados por Deca (de 1 a 10) e não mais por percentil (1% a 99% superiores).

Na nova classificação, o grupo Deca 1 reúne os 10% de animais que mais se destacaram nas avaliações; o Deca 2 corresponde aos 11% a 20% melhores e assim sucessivamente, até se chegar à Deca 10, que inclui os 10% pior avaliados. Com essa medida, o PMGZ hierarquizou os touros por faixas amplas. O grupo Deca 1, por exemplo, inclui 300.000 animais, ou seja, 10% de um universo de quase 3 milhões de indivíduos incluídos na base de dados da entidade.

Primeiro sumário PMGZ/Geneplus com animais classificados por Deca foi apresentado durante a Expogenética 2019.

O que isso significa na prática? Segundo produtores ouvidos por DBO, foram colocados, na mesma “gaveta”, touros com diferenças significativas de desempenho, o que tem gerado confusões. “No mês passado, realizei um leilão de 400 touros e 95% do meu catálogo era Deca 1. O problema é que, dentro desse grupo, haviam indivíduos com índice (iABCZ) 7 e outros com índice 30, ou seja, animais totalmente diferentes e que, pelo novo sistema de classificação, são iguais”, argumenta João Guilherme, dono da Fazenda Água Fria, de Xinguara, PA, que mantém 4.000 matrizes em avaliação no PMGZ. “Como explicar isso para o meu comprador?”, questiona.

Segundo o produtor, a classificação por Deca nivelou os projetos de seleção, que perderam seu diferencial. “Todos fomos colocados na mesma cesta. Criadores que fazem um melhoramento genético consistente e gente que nunca fez seleção de fato”, queixa-se João Guilherme.

Erros técnicos

A medida foi anunciada pela Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) em fevereiro deste ano, após a entidade constatar – com base em dados coletados a campo em todo o Brasil – que a variabilidade genética da raça Nelore estava sob risco, devido ao uso de um número restrito de touros classificados como Top 0,1%. A solução encontrada, segundo Luiz Antônio Josahkian, superintendente técnico da ABCZ, foi optar pela Deca, visando destacar um leque mais amplo de linhagens e resgatar algumas alternativas genéticas que não estavam sendo utilizadas porque não alcançavam o seleto grupo dos 0,1%.

“O Top tecnicamente está errado e seu uso comercial também está errado” – Luiz Antônio Josahkian, superintendente técnico da ABCZ.

“O conceito contém erros técnicos graves. O maior deles é eleger, como 0,1%, touros com acurácia deste tamanhinho, que, na avaliação seguinte, se mostram ruins. O Top leva à supervalorização de animais e ao uso excessivo de uma genética muitas vezes inconsciente. Tecnicamente está errado e o uso comercial também está errado”, pontua Josahkian, acrescentando que, nos últimos anos, alguns problemas funcionais foram incorporados à raça justamente por ter-se dado ao “número” tamanha força comercial.

Gilberto Honório, da Guto Assessoria, que seleciona animais para produtores em 60 leilões Brasil afora, confirma esse prognóstico. No ano passado, ele descartou 6.000 touros prontos para a venda devido a problemas relacionados à funcionalidade e caracterização racial. “É terrível o criador ter de descartar 20% de uma safra tratada, pronta, por causa desse tipo de problema. Independentemente da classificação adotada pelo programa, precisamos repensar essa situação, para ver se estamos fazendo acasalamentos adequados e como podemos minimizar erros”, avalia Guto. O assessor se diz a favor do percentil como ferramenta de seleção, mas alerta que o desempenho não deve sobrepor características essenciais e inerentes à preservação da raça Nelore. “São defeitos adquiridos, ou seja, problemas que a raça não tinha e que foram introduzidos”, diz ele.

A favor do percentil

Argeu Silveira, diretor técnico do Programa Nelore Brasil, da ANCP (Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores) pensa diferente. Para ele, alterar o sistema de classificação dos animais não garante isenção de tais defeitos. “O melhoramento consiste em usar os melhores e descartar os piores, inclusive em termos de funcionalidade. Essa é a regra universal de qualquer programa, mas o que descartar é decisão de cada técnico, cada criador”, salienta.

No Seminário da ANCP, realizado em maio, na cidade de Ribeirão Preto, SP, Silveira fez uma defesa pública do percentil, comparando dois touros: um Top 0,1% e outro Top 10%, que, no caso da Deca, teriam a mesma classificação. Considerando-se apenas uma característica (peso ao sobreano) o primeiro animal imprimia à progênie 32 kg a mais e o segundo, 16,67 kg. A diferença entre ambos era de 15,34 kg.

“Deca não vai reeducar o mercado, apenas criar confusões”
Ricardo Andrade, da Fazenda Vale do Boi, em Araguaína, TO

“Vamos considerar que o touro 0,1% trabalhou cinco anos, produzindo 30 filhos por ano e forneceu 150 filhos. Ao multiplicar esse número por 15,34 kg e considerando-se o valor médio de R$ 6 por quilo de PV, tem-se uma diferença, somente para peso ao sobreano, de R$ 13.806 do touro Top 0,1% para o 10%. Se eu agregar leite e outras características a essa conta, ela fica ainda mais interessante”, argumentou Silveira. Para ele, que já ministrou 50 cursos de acasalamentos dirigidos pelo País, não se deve preconizar o uso excessivo do Top 0,1%, nem menosprezar o TOP 10%, mas é importante utilizar percentis quando se precisa estimar claramente as diferenças econômicas de um touro para outro.

Sintonia fina

Ricardo Andrade, da Fazenda Vale do Boi, com sede em Araguaína, e participante do PMGZ desde 1975, concorda. Ele tem tido dificuldade processar as informações genéticas de seu rebanho e definir acasalamentos após a mudança de Top para Deca. “É difícil escolher animais dentro dessa enorme gaveta de 10 em 10. O valor da DEP está lá, mas não sei o que aquilo representa em relação ao grupo que o animal pertence. Qual a posição dele entre os 10% melhores? O percentil define melhor o ranqueamento do animal para determinada característica. É um preciosismo sim, mas necessário para quem faz seleção”, explica Andrade, que reivindicou mudanças à equipe técnica da ABCZ nos últimos meses. “Sei que existe uma corrida para se conseguir índices cada vez mais altos e não concordo com isso. Mas classificar os animais por Deca não vai reeducar o mercado, apenas criar confusões”, lamenta o criador.

Em rebanhos como o da Vale do Boi, percentil ajuda nos acasalamentos. (Foto: Divulgação Vale do Boi)

Segundo Josahkian, a ABCZ está discutindo estratégias para minimizar esses problemas internamente, mas afirma que a Deca continuará sendo a ferramenta utilizada pelo PMGZ para se comunicar com o mercado. A seu ver, os produtores de genética não terão problemas, pois podem fazer análises detalhadas por DEPs isoladas ou em conjunto. Já o comprador de touros PO terá um universo mais amplo para escolha dos animais no mercado, com dimensionamento comercial adequado.

Para Ricardo Abreu, gerente de fomento do PMGZ, essa é a principal contribuição da Deca. “Trabalhei 21 anos ligado às centrais de inseminação e vi excelentes touros Top 2% não serem indicados, nem utilizados, em detrimento de touros Top 0,1% que não eram necessariamente os melhores para o rebanho em questão”, diz Abreu. “De 1.000 animais Nelore contratados pelas centrais, 200 fornecem 90% das 4 milhões de doses comercializadas atualmente. Agora. pergunto: e os 800 restantes? A busca frenética pelo Top 0,1% está levando o mercado a poucas opções de pedigree nas centrais, mola propulsora da genética para os diferentes criatórios por todo o País”, acrescenta.

Comunicação é fundamental

Top ou Deca são simplificações de índices genéticos, calculados com base em diferentes características de interesse econômico, como ganho de peso, precocidade, qualidade de carcaça etc, cujo peso na ponderação final é definido por cada programa de melhoramento. Fábio Dias, diretor de relações com o pecuarista da JBS, relembra as primeiras discussões sobre os índices há 20 anos, das quais participou efetivamente no início de sua carreira ainda voltada para o melhoramento genético.

Eles nasceram da necessidade de se ter regras claras e auditáveis para escolha dos 30% melhores animais da safra nos projetos de CEIP (Certificado Especial de Identificação e Produção), com preceito básico de comunicar ao criador o potencial genético de determinado animal em relação à sua base. Naquela época, lembra Dias, não se esperava tamanha absorção do conceito. “Se ele fez sucesso, é porque a comunicação com o produtor funcionou. E se alguém está vendendo melhor, é porque está se comunicando melhor. O sucesso do percentil tem feito, claro, o risco que ele causa”, opina Dias.

Para o zootecnista William Koury Filho,  que lida diariamente com um universo estratificado de fazendas na empresa BrasilcomZ, “ao se comunicar com o mercado por meio de dados tão precisos quanto o percentil (Top 1%) ou o permiliar ( Top 0,1%), os programas disseminaram informações que precisam de interpretação técnica para ser corretamente utilizadas”.

Fábio Dias alerta: “A unidade de medida que você usa para vender as coisas deve estar correlacionada ao progresso obtido que se tem. Vender elefante em gramas não faz sentido. Uma coisa é escolher um touro para central, decidir como utilizá-lo no acasalamento. Outra é vender touro com base na terceira casa depois da vírgula. Ninguém vê essa diferença e é até uma certa leviandade dizer que ela existe. Não se pode forçar a diferença em um processo de comunicação. Ela deve ser construída e instruída, já que nenhum índice oferece segurança para ser usado cegamente. Nenhum deles”, pontua Dias.

Juntando informações

Para resolver o problema, muitos programas de melhoramento que trabalham com Deca passaram a incorporar também o percentil ao valor absoluto de suas DEPs, nos últimos anos. Um deles é o Conexão DeltaGen, que foi criado há 40 anos e tem atualmente 63 fazendas associadas e 78.000 matrizes na base de avaliação. Há três anos, esse programa coloca as avaliações à disposição do associado com as duas informações.

“Temos clientes que falam em Deca, outros em Top 0,1%, outros que querem comprar o destaque do leilão. O perfil da pecuária no Brasil é muito amplo, não podemos desprezar nenhum tipo de comunicação já estabelecida”, afirma Rodrigo Dias, gerente técnico do DeltaGen.

Segundo ele, no programa, também existem animais Deca 1 totalmente diferentes, porque a ponderação do índice favoreceu uma característica acima da outra. “Isso não quer dizer que a avaliação está incorreta. O Deca é mais versátil, enquanto o percentil é mais preciso. Nos dois casos, precisamos entender de que tipo de cliente estamos tratando”.

Com vasta experiência na área, o médico-veterinário Fernando Velloso olha a discussão sobre outra perspectiva: “a avaliação genética é paga pelo produtor e a ele pertence; se existe, deve estar disponível para uso”. Para Velloso, que atua junto ao Promebo, Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne da Herd Book Collares, no Rio Grande do Sul, o melhoramento genético não deve ter caixa preta, precisa ser um livro de consulta pública; a reeducação do mercado passa pela transparência”.

Velloso propõe que os programas sinalizem em seus sumários quais são as características passíveis de alteração, seja em função da baixa acurácia ou da oscilação causada pela interação genótipo-ambiente. “Sabemos que algumas características, com poucos dados coletados, podem mudar à medida que a base é ampliada. Por que não divulgá- las com esse aviso ou deixar de publicá-las até que apresentem maior acurácia?”, questiona. Na sua opinião, a Deca exige maior esforço de interpretação por parte do pecuarista, que já tem baixa compreensão de genética. “Mudar a classificação não altera isso, pode apenas sobrecarregá-lo”, diz Velloso.

Revista DBO – Edição 467 – Setembro de 2019

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Água limpa para maior produção

Pesquisas comprovam que os animais diminuem o consumo de água quando não encontram fontes limpas. Além disso, excesso de sulfatos, por exemplo, substâncias presentes em esgotos, podem causar problemas como queda de desempenho, infertilidade e baixa imunidade.

Água fornecida aos animais vem do mesmo reservatório que abastece a sede da fazenda.

Por Renato Villela

A Fazenda Vale do Boi, de Epaminondas de Andrade, selecionador de Nelore do Tocantins, conta com 98 bebedouros, um número alto, considerando-se que a fazenda faz pastejo rotacionado, mas Seu Epaminondas preferiu não trabalhar com praças de alimentação centrais. Os bebedouros ficam dentro dos piquetes ou em suas divisas.  “A fazenda já estava organizada assim e decidimos não mudar”, justifica o selecionador, que dessa forma, diminuiu disputas por água e situações de estresse dentro dos lotes, garantindo o bem-estar animal.

Outra preocupação constante é com a qualidade hídrica. Tanto a sede da propriedade quanto os pastos são abastecidos pelos mesmos reservatórios. “A água que o gado bebe é a mesma que a gente toma”, diz o produtor. Para evitar desperdício, Seu Epaminondas usa bebedouros menores, com capacidade entre 1.200 e 600 litros, uma tendência hoje defendida por consultores. “Com isso, temos de jogar menos líquido fora quando esvaziamos esses recipientes para lavagem”, justifica.

Os bebedouros passam por manutenção periódica e os reservatórios são cobertos para evitar contaminação, como as caixas d’água nos centros urbanos, uma providência que raramente se vê nas propriedades rurais. “Se os reservatórios fossem abertos pegariam sol e poeira, acumulando lodo, que chega até a entupir o encanamento”, diz Seu Epaminondas.

Mas não é só. O fato de os reservatórios serem cobertos evita o acesso de aves que podem, por exemplo, defecar em seu interior, contaminando a água, e a incidência da radiação solar favoreceria o desenvolvimento de algas, que poderiam ser levadas pelos canos. “Nossas observações de campo mostram que os animais não bebem água quando alguns tipos de algas estão presentes. Eles têm repulsa”, afirma Mateus Paranhos, do Etco.

Boi quer água pura

Essa percepção tem sido comprovada por pesquisas. João Luís Santos, da Especializo Gestão de Recursos Hídricos, de Campinas, SP, cita um estudo realizado no Canadá sobre concentração de estrume na água e restrição de consumo. Constatou-se que 0,05 mg de estrume por litro já é percebido pelos animais, fazendo-os procurar outras fontes, caso tenham essa opção.

“É uma concentração muito pequena, principalmente se considerarmos que um animal pode gerar até 20 kg de estrume por dia, quantidade suficiente para contaminar 40 milhões de litros de água”, diz. A pesquisa mostrou que, caso o animal não disponha de fonte alternativa, reduzirá o consumo de água se a concentração de estrume subir para 2,5 mg/l. A partir de 5 mg/l, já cai o consumo de forragem. “É muito fácil encontrar concentrações desse nível na água que os animais bebem”, afirma.

A contaminação microbiológica não é o único parâmetro avaliado. Há outros critérios de qualidade como odor e sabor, propriedades químicas e físicas, presença de elementos tóxicos e concentração de compostos minerais. O excesso de sulfatos, por exemplo, substâncias presentes em esgotos que contaminam a água, pode causar problemas como queda de desempenho, infertilidade e baixa imunidade, podendo até mesmo levar animais à morte.

Um estudo mostrou redução no consumo hídrico, consequentemente, no desempenho produtivo, em função de altas concentrações de sulfatos na água (veja tabela). O lote que ingeriu 400 mg de compostos por litro (dentro do limite de 1.000 mg, no caso de animais adultos, ou 500 mg/l, no caso de bezerros), bebeu 57 litros e ganhou 3,79 @. Já o quarto grupo, que ingeriu 1.700 mg de sulfatos/l, ganhou apenas 2,4@. Considerando-se o peso final dos lotes (375 e 322 kg, respectivamente), e a arroba a R$ 135, a diferença foi de R$ 187,38 a mais para o primeiro grupo.

“É um dinheiro que o produtor está deixando de ganhar por não ter água de boa qualidade”, diz. Com mais de 20 anos de experiência em gestão de recursos hídricos, Santos explica que, no meio rural, o problema está na destinação inadequada dos dejetos ou na deposição de fezes dos animais nos pontos de dessedentação, como as cacimbas. De acordo com ele, é preciso processar adequadamente o lixo, cuidar das fontes de água e preservar as nascentes.

“A prevenção é a melhor forma de ter água de qualidade na propriedade”. O especialista faz um apelo: “Precisamos valorizar nossos recursos hídricos. Não temos uma cultura de valorização, não consideramos a água um insumo produtivo, como a genética, a nutrição ou o pasto, e não temos noção do prejuízo que traz uma água de má qualidade à pecuária, devido a nosso próprio desconhecimento”.

Dimensionamento correto

Tão importante quanto a qualidade da água para o bem-estar dos animais é garantir-lhes boa oferta do precioso líquido e facilidade de acesso para dessedentação. Para isso, é necessário reduzir a distância a ser percorrida até a fonte de água e dimensionar corretamente os bebedouros.

Restrição hídrica causa forte estresse, gerando não somente problemas de ganho de peso. Se o bovino se sentir ameaçado pela falta de água, vai mudar seu comportamento, movimentar-se mais, tornar-se mais agressivo. Isso também acontece se o bebedouro for insuficiente para o número de animais. Nós também ficaríamos agressivos se estivéssemos com sede, tivéssemos apenas um copo d`água e cinco pessoas querendo tomá-lo. Os animais não são diferentes de nós”, afirma Santos.

Conforme dados de pesquisa, para cada quilo de matéria seca consumida, o animal precisa ingerir entre 3,5 e 5,5 l de água e secretar 5 l de saliva. Um bovino adulto consome, em média, 50 l de água por dia. Segundo Adilson Aguiar, professor da Faculdades Associadas Uberaba e diretor da  Consupec (Consultoria e Planejamento Pecuário), para dimensionar o bebedouro, considera-se que, em média, apenas 10% do lote chegando para beber a cada vez, desde que os animais não estejam passando por restrição de água.

“Diante disso, recomenda-se 8 cm lineares para cada unidade animal”, afirma. A demanda por água depende do peso corporal dos animais. “Com base nele, calcula-se o consumo diário de matéria seca (MS) e a ingestão de água, que varia de 3,5 l a 5,5 l /kg de MS ingerida, dependendo de fatores como raça, idade do animal, estado fisiológico, temperatura, umidade relativa do ar etc”.

O professor recomenda que o cálculo da demanda considere a época do ano em que a capacidade de suporte das pastagens alcançará máximo nível. “Entretanto, se a bóia do bebedouro for de vazão total e os bebedouros estiverem bem posicionados de forma que os animais não precisem caminhar muito, não é preciso se preocupar com o espaço por animal e, sim, com a vazão”.

Detalhes fazem diferença

A utilização de bebedouros menores, como os da Fazenda Vale do Boi, requer alguns cuidados. O dimensionamento da rede hidráulica, por exemplo, deve obedecer a critérios técnicos. “Utilizamos canos de grosso calibre (50 a 75 mm), dependendo da distância a ser percorrida. Muitas vezes, para economizar, o produtor utiliza canos de apenas 25 mm. Se usá-los para levar água a distâncias acima de 5 km, vai chegar somente uma gota de água no local”, diz Ricardo.

Ricardo Andrade mostra tampa que protege a bóia.

As bóias utilizadas são de vazão total, que permitem enchimento rápido do bebedouro. Como nas demais instalações da fazenda, a diferença está nos detalhes. O ralo do bebedouro, que era de 1 polegada e, por isso, demorava demais para esvaziar, foi substituído por outro de 1,5 polegada. Em vez de um plug de rosca no cano, que exige chave para abrir ou fechar, Ricardo usa um “tape” para conexão em cano soldável, que é colocado ou retirado com facilidade.

A abertura para um cano de ¾ na entrada de água cedeu lugar a outro, de 1 polegada. “Enche mais rápido”, diz. Como a tampa de concreto do bebedouro pressionava a bóia para baixo, mantendo o volume mais baixo, fez-se uma depressão em sua parte interna. Assim, o bebedouro fica sempre cheio.

Além disso, o produtor deve dimensionar o reservatório de modo a garantir uma reserva de água para pelo menos dois a três dias, medida de segurança, caso ocorra algum problema no sistema hidráulico. Aguiar explica que os animais preferem água de bebedouros à de aguadas naturais, mesmo tendo acesso livre a ambas. Além de ter aspecto mais límpido, essa água apresenta temperatura mais alta do que a dos mananciais, um atrativo para os bovinos.

A temperatura hídrica influi no ganho de peso. “Um experimento com novilhas zebuínas indicou que as fêmeas que ingerem água aquecida pelo sol ganham 17% mais peso do que as que ingerem o líquido em temperatura ambiente”, afirma Aguiar. Resultados de outros trabalhos caminharam na mesma direção.

“Vacas paridas que ingeriram água em bebedouro ganharam 270 g a mais por dia do que as que beberam em um córrego, enquanto seus bezerros tiveram ganho de 140 g a mais por dia”, enumera o professor. A distância percorrida para beber água também impacta no desempenho. “Após 500 m de distância, a cada 1 km que os animais caminham potencialmente deixam de ganhar 40 g/km,  se for plano, 53 g/km, se for levemente ondulado, e 60 g/km, se for ondulado”, frisa o professor.

Revista DBO – Edição 465 – Julho de 2019

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Pecuária precisa de “produtores de água”

Em algumas regiões, garantir água para o rebanho vem exigindo nova atitude dos pecuaristas no cuidado com suas fontes e nascentes. Eles também precisam virar ‘produtores de água’, a exemplo de Epaminondas Andrade, da Fazenda Vale do Boi, TO, que recuperou nascentes e montou um sistema hídrico criativo para burlar a escassez e produzir mais. 

Por Renato Villela

A água é a “nova fronteira” da sustentabilidade. Diretamente associada ao bem-estar animal (sede traz sofrimento) e à produção de carne (boi que não bebe não come), a água começa a escassear onde era abundante, colocando a atividade sob risco em vários pontos do País. “Usá-la de forma racional é questão de sobrevivência. Tê-la em abundância e qualidade, um direito dos animais”, diz Mateus Paranhos, coordenador do Etco, Grupo de Estudos e Pesquisa em Etologia e Ecologia Animal, da Unesp/Jaboticabal.

Há forte pressão da sociedade nesse sentido, confirmada por estudos cada vez mais frequentes sobre comportamento animal e “pegada hídrica”, quantidade do recurso que se usa para obter um produto, desde a fazenda até a indústria, incluindo os insumos utilizados.

Nos sistemas fortemente baseados no confinamento de longa duração, como o norte-americano, fala-se em 15.415 litros para 1 kg de carne. Nos de pasto, como o brasileiro, esse número relativo a todo o processo ainda não está disponível, mas estudos iniciais da Embrapa indicam uma “pegada” menor. Independentemente disso, os desafios do setor nessa área são grandes. Muitos pecuaristas ainda não se deram conta, mas, além de produtores de bois, terão de se tornar produtores de água.

Epaminondas de Andrade, respeitado selecionador de Nelore do Tocantins, já é um deles. A “intimação” veio da própria natureza. Quando chegou na região do Bico do Papagaio, há 35 anos, vindo do Triângulo Mineiro, encontrou na Fazenda Vale do Boi, de 1.875 ha, em Carmolândia, a 27 km de Araguaína (TO), um modelo típico de pecuária extensiva: piquetes grandes, com divisões atreladas a pequenos córregos, onde os animais matavam a sede.

Se o pasto não era servido por um riachinho, recorria-se às famigeradas cacimbas, cavando áreas baixas até encontrar um lençol freático superficial ou esperando que a vala se enchesse com água da chuva. Hoje, essa estratégia é condenada, devido à má qualidade da água e ao risco de botulismo, mas, na época, era muito comum. O modelo convencional de dessedentação do gado, contudo, logo mostraria suas fragilidades.

Grande susto

Na década de 90, para progredir na seleção de Nelore, Seu Epaminondas, como é conhecido, decidiu dividir pastagens e levar água até os piquetes não contemplados por cursos naturais. Para isso, usou um poço artesiano, construiu reservatório e alguns bebedouros, instalou encanamentos, mas essa estrutura atendia pequena parte dos pastos. A grande maioria continuava a ser servida por córregos e cacimbas. Foi então que o clima começou a dar suas cartas, complicando a história.

“Há 10 anos, percebemos, que a quantidade de chuvas estava diminuindo e que a seca estava se esticando”, conta o filho, Ricardo José de Andrade, que toca a fazenda junto com o pai e o irmão, Paulo Henrique. O histórico pluviométrico da Vale do Boi, fruto de registros rigorosos feito por Seu Epaminondas desde 1986, comprova isso. A média anual de chuvas diminuiu (veja gráfico) e a estiagem, que antes ia de maio a agosto, passou a se estender até setembro-outubro.

A mudança climática trouxe consequências graves: córregos que nunca secavam nesse período, passaram a secar; nascentes começaram a minguar. Não tardou para que o projeto de intensificação de pastagens fosse ameaçado. “Estávamos com a fazenda melhor dividida, os pastos cortados por córregos, mas não tínhamos mais água”, diz Ricardo. Alguns piquetes foram abandonados no auge da estiagem.

“Não chegamos a misturar lotes, como muitos produtores acabam fazendo, mas a seca dos córregos atrapalhou muito o manejo do gado”, conta. Era fundamental ter abundância hídrica na Vale do Boi, criando um sistema de armazenamento robusto que permitisse trabalhar com folga, mas sem desperdício. Começou aí a história de Seu Epaminondas como “produtor de água”, pilar importante da sustentabilidade na fazenda.

O primeiro passo para enfrentar o problema da escassez hídrica era encontrar novas fontes de abastecimento. A propriedade tem rebanho de 3.000 cabeças, alojadas em 1.300 ha de pastagem. São três retiros, equipados com currais. Dois ficam juntos e o terceiro, adquirido posteriormente, encontra-se do outro lado da rodovia que margeia a propriedade.

O poço artesiano escolhido para dar início à troca das aguadas naturais por bebedouros e atender os dois retiros contíguos produziu menos água do que o esperado. A previsão de 3.500 litros/hora não se concretizou. Tratava-se, na verdade, de um antigo poço, que havia sido perfurado anos atrás pela Prefeitura de Carmolândia, na época em que o município, que faz divisa com a propriedade, buscava alternativas na região para abastecer a população da cidade. A pouca vazão fizera o projeto de poços ser abandonado.

Produzindo água

Que fazer diante disso? Perfurar outros pontos da fazenda não sairia barato nem era garantia de sucesso, devido ao histórico de poços de baixa vazão naquela região. A saída foi encontrar uma forma complementar de produção hídrica. A fazenda possui três minas d`água maiores, uma delas, inclusive, utilizada há 25 anos para abastecer a sede, mas nunca se havia cogitado usá-las para matar a sede dos animais.

“Na época, nem pensávamos em instalar bebedouros na fazenda”, diz Ricardo. O bom funcionamento das minas ao longo dos anos, associado à sua localização privilegiada (700 m acima do poço já existente) despertou a criatividade dos produtores, levando-os a desenhar um modelo inovador de captação hídrica, que alia a produção da nascente com a do poço artesiano.

Antes de descrever esse sistema, entretanto, voltemos às nascentes salvadoras. O cuidado com esses “pontos de descarga” dos aquíferos é fundamental para se ter abundância hídrica na propriedade. É necessário isolá-las, recompor a mata ciliar que as protege (caso tenha sido destruída) e perenizá-las. Seu Epaminondas usou, para isso, um sistema semelhante ao descrito na reportagem “Fartura no campo”, publicada por DBO, em abril de 2015.

A técnica consiste em cavar bem o local, retirando todo tipo de sujeira e barro podre até se identificar os “olhos d`água”. Em seguida, calça-se o buraco com pedras grandes que permitem o percolamento e filtragem da água. Por cima, coloca-se pedras menores e passa-se sobre elas uma camada de solo-cimento. Assim, a nascente fica coberta, evitando-se assoreamento, presença de animais silvestres e acúmulo de matéria orgânica que pode contaminar a água.

Na Vale do Boi, antes da colocar as pedras no buraco, Seu Epaminondas instalou, em sua parede frontal, um cano de PVC de 100 mm, rente ao solo, para limpeza da nascente, procedimento recomendado de tempos em tempos. Basta destapá-lo e esvaziar a água. Um segundo cano, também de 100 mm, foi usado para abastecimento, e um terceiro, do mesmo calibre, foi colocado mais acima, para liberar o excedente de água. Nele, foi instalada uma válvula de retenção, que permite a saída da “sobra” de líquido, mas impede a entrada de pequenos animais.

Toda a área no entorno da nascente da Vale do Boi foi cercada, para impedir o acesso do gado, conforme rege a legislação ambiental. Outra medida importante foi a construção de “lombadas” ou “murundus”, para protegê-la de enxurradas.

Sistema interligado

Com a nascente protegida e estruturada, providenciou-se sua conexão com o poço artesiano. O sistema integrado funciona da seguinte maneira: a água represada e canalizada na mina segue, por gravidade, até uma caixa d’água metálica, com capacidade para 20.000 litros, que servia como antigo reservatório e fica ao lado do poço.

Para aumentar a quantidade de água captada, o mesmo trabalho foi feito em outras duas nascentes próximas, cujos canos de abastecimento também convergem para a caixa, garantindo fluxo intermitente, sem qualquer gasto de energia. “Cada nascente contribui, em média, com 1.000 l/h no auge da seca, o resto vem do poço”, conta Seu Epaminondas. Uma vez que o volume da caixa é preenchido, a água sai por um cano na parte superior e é despejada dentro do poço, livre de sedimentos que se acumulam no fundo do recipiente, cuja limpeza é feita abrindo-se o registro.

O sistema, portanto, se retroalimenta. Do poço, a água é bombeada para dois reservatórios, um de 30.000 e outro de 100.000 litros (ambos localizados na parte alta do terreno), descendo por gravidade para abastecer os bebedouros dos piquetes que compõem os dois retiros contíguos da fazenda.

Nascente já protegida e com encanamento. À dir., Seu Epaminondas e o filho, Ricardo, mostram o poço artesiano e a caixa d’água com bomba, que alimenta o reservatório.

Detalhe importante: além da bomba hidráulica localizada no poço artesiano, há outra de reserva junto à caixa, independente e pronta para bombear a água que vem direto das nascentes, caso haja algum problema com o primeiro equipamento. Trata-se de uma medida de precaução que também está presente na configuração dos reservatórios. “Tudo o que depende de bombeamento uma hora dá problema. Tendo duas bombas, se uma parar, ligamos a outra e garantimos o abastecimento sem interrupções. Tudo é pensado para uma situação de caos”, diz Seu Epaminondas.

A primeira etapa do projeto teve início em 2009, quando foi preciso “dar uma arrancada” em virtude do agravamento da crise hídrica. Naquele ano, construiu-se o reservatório de 100.000 litros e estendeu-se a linha de canos (5 km) até o fundo da fazenda, onde a situação era mais crítica. O produtor instalou seis bebedouros que davam acesso a 12 pastos.

“No ano seguinte a seca foi forte, os córregos novamente secaram, mas não tivemos problema para fornecer água aos animais”, recorda Ricardo. Para os piquetes que ainda não estavam servidos por bebedouros, recorreu-se a uma estratégia de manejo. “Colocávamos o gado mais cedo nessa área, quando ainda havia água nos córregos”, diz. Com o passar dos anos, mais pastos foram sendo estruturados. Hoje, a fazenda conta com 140 piquetes, 116 deles (83%) servidos por água encanada, mas a meta é chegar a 100% nos próximos dois anos.

Distribuição ininterrupta

A exemplo da dobradinha que se viu entre a nascente e o poço artesiano para produzir a quantidade de água necessária ao rebanho, era preciso garantir que a distribuição fosse efetuada de maneira ininterrupta. A solução encontrada foi fazer os dois reservatórios de 30.000 e 100.000 litros operar em sintonia. Dispostos lado a lado, ambos são abastecidos simultaneamente, graças a uma bifurcação em “Y” no encanamento de chegada.

Um registro controla o fluxo, sempre maior no reservatório de 100.000 l, que também recebe água por gravidade do de 30.000 l (mais alto). “Essa engenharia permite aproveitar melhor a bomba e mantém os dois reservatórios sempre cheios”, diz Ricardo.

Para evitar desperdício, foram instaladas duas bóias, uma elétrica que desliga automaticamente a bomba do poço, e outra que controla a passagem de água do reservatório mais alto. “Quando se atinge a capacidade máxima, a bóia fecha, evitando transbordamento”, explica o produtor.

Ricardo chama a atenção para outro detalhe muito interessante. No reservatório de 100.000 l, o cano que leva a água até os bebedouros não fica na base da instalação, rente ao solo. A captação da água é feita por meio de um sifão, cuja altura corresponde a 2/3 da parede interna do reservatório. Em formato de “U” invertido, ele possui pequenos furos na barra superior. Quando o volume de água diminui, o ar entra no cano por esses furinhos e o sistema para automaticamente de funcionar.

“O vaqueiro percebe que os bebedouros não estão sendo abastecidos e verifica o que está acontecendo. Se for algo simples, como travamento da bomba, basta destravá-la e está resolvido. Mas se for um problema que requeira a presença de um técnico, basta abrir um segundo registro, este rente ao solo, e usar a reserva de água, que é de 70.000 litros. Isso nos dá tempo suficiente para resolver a questão”, explica Ricardo. Se o escoamento fosse feito por baixo, caso faltasse água no bebedouro por algum motivo, não haveria água no reservatório, agravando a situação.

Travessia da represa

O mesmo modelo de abastecimento hídrico já descrito foi usado no terceiro retiro da fazenda, do outro lado da rodovia. Quando essa gleba foi comprada, 17 anos atrás, tinha um poço artesiano com capacidade para 6.000 l/hora e um pequeno reservatório situado na parte mais alta. Os pastos eram grandes e, para serem divididos, precisavam de água. Da mesma forma que nos outros retiros, o poço não tinha vazão suficiente.

“Rebaixamos a bomba algumas vezes na tentativa de captar mais água, até o momento em que não deu mais”, conta Seu Epaminondas. Sem nascentes que pudessem fornecer água por gravidade, o jeito era fazer mais poços. “Furávamos, furávamos, mas não encontrávamos nada”, conta ele.

Ao todo, foram feitas 11 tentativas. O insucesso levou a uma situação extrema. “Para garantir o abastecimento do reservatório tivemos de puxar água de caminhão-pipa por dois anos seguidos”, relata o produtor. Não havendo fontes de água de melhor qualidade, Seu Epaminondas decidiu recorrer à represa.

Conjunto de reservatórios da fazenda e a represa que teve de ser transposta pelo encanamento.

Os postes já haviam sido colocados, a energia elétrica ‘puxada’ e os canos comprados para começar o trabalho, quando uma empresa de perfuração encontrou um poço no vizinho e indicou o local por onde provavelmente passava o “veio d`água”. Dito e feito. “Encontramos um poço com água de ótima qualidade e vazão de 30.000 litros/hora”, conta.

O problema parecia, enfim, resolvido, mas a alegria durou pouco. O novo poço ficava do outro lado da represa, oposto ao reservatório, e era preciso levar o encanamento até ele, passando por 150 m de água. Sem a possibilidade de colocar estacas de sustentação ao longo do trecho, devido à grande profundidade da represa (3 m, em alguns pontos), optou-se por usar “âncoras” de concreto, em formato de anéis, que pudessem ser enfiadas no cano, mantendo-o no fundo das águas.

“Para fazer essas âncoras, pegamos baldes plásticos de 20 litros, enchemos com concreto e colocamos um cano de 100 mm no centro para fazer o furo. Após a secagem do cimento, cortamos o balde e retiramos o cano. O resultado são anéis grossos, com furo de tamanho suficiente para passar um cano de 75 mm”, conta Ricardo.

O primeiro passo para se passar o encanamento de um lado para outro da represa foi emendar suas barras e depois levar o material, boiando, até a outra margem, com ajuda de um barco. “Enchemos o cano com um pouco de água apenas para melhorar sua estabilidade”, explica o produtor. A partir daí veio a parte mais trabalhosa: colocar as âncoras. Uma a uma, elas foram enfiadas no cano, por meio de seus orifícios. Para evitar que seu peso não quebrasse a barra de PVC (cada uma tem sua âncora), amarrou-se uma corda em cada anel de concreto e usou-se essa corda para soltar a âncora devagarinho até ela chegar ao fundo da represa.

O cano utilizado por Seu Epaminondas foi o marrom, mais resistente, porém mais flexível do que o azul, normalmente utilizado para encanamentos enterrados. Ele optou por esse tipo de material para evitar que as barras se quebrassem com o arqueamento. A despeito de a empreitada ter sido realizada durante a seca, com a represa, portanto, mais baixa, foi preciso mergulhar em alguns trechos para se certificar de que o cano estava fixado rente ao fundo.

Visão do repórter

No final dos anos 70, Epaminondas de Andrade, um dos principais selecionadores da raça Nelore na região Norte do País, deixou um emprego bem-sucedido na indústria têxtil, onde iniciou a carreira na Indústria Reunidas Fábricas Matarazzo, na capital paulista, para se tornar fazendeiro, primeiro em Uberaba, MG, e depois em Araguaína, TO.

Pioneiro, tornou-se um dos primeiros a aderir ao Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ) da ABCZ (Associação Brasileira de Criadores de Zebu), há mais de 30 anos. Teve suas habilidades de gestão reconhecidas pelo Prêmio de Competitividade para Micro e Pequenas Empresas (MPE) do Sebrae, em 2010, que o consagrou como referência em administração rural no País. “Não posso me esquecer de agradecer à indústria. Muita coisa do que fiz devo à atividade industrial”.

No dia que visitei sua propriedade para esta reportagem, duas cenas me chamaram a atenção. A primeira foi quando o vi arrancando obstinadamente as plantas invasoras que tentavam sufocar a grama esmeralda, plantada caprichosamente nas cercanias dos reservatórios de água.

Noutro momento, me surpreendi ao vê-lo, do alto de seus 83 anos, descer do banco de trás da caminhonete e sair em disparada, feito um menino, para abrir a porteira, enquanto eu, sentado na frente, tentava entender os detalhes do sistema de água montado na propriedade.

Quando estamos diante de alguém com uma longa trajetória na atividade, é natural perguntar como é sua relação com a terra, que legado gostaria de deixar, quais conselhos daria para as novas gerações. Tinha todas essas perguntas no meu caderno de anotações. Perderam a importância de tal forma que, se as fiz, não me lembro das respostas. Preferi registrar aqui, a força dessas duas imagens, capazes de retratar a dedicação, a entrega e o entusiasmo que só pertencem àqueles que amam seu ofício.

Revista DBO – Edição 465 – Julho de 2019

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A santa água para o gado …

Revista DBO – Edição 465 – Julho de 2019

Demétrio Costa

Felizmente, não é um cenário comum, mas projetos pecuários que lidam com escassez de água são bom exemplo para despertar a atenção sobre a importância de fazer bom uso do recurso e, sobretudo, zelar por suas fontes. Quando comprou a Fazenda Vale do Boi, em Carmolândia, a 30 Km de Araguaína, TO, Epaminondas de Andrade não tinha problema nesta área. O padrão de chuvas era melhor que agora e o gado no sistema extensivo matava a sede nos córregos ou nas antigas cacimbas. Com a intensificação, tudo começou a mudar. Foi preciso levar água aos novos pastos, furar poço artesiano, mas logo poço passou a não dar conta e outras fontes também começaram a minguar. Há 10 anos, o respeitado selecionador de Nelore, hoje com 83 anos de vida, descobriu que precisava virar um produtor de água para sustentar o rebanho de 3 mil cabeças. O repórter Renato Villela foi até a Vale do Boi e conta, na matéria de capa, como Seu Epaminondas e o filho Ricardo domaram a situação com trabalho exemplar de preservação de nascentes.

Pecuaristas do Tocantins Aprovam Novo Defensivo Que Controla Plantas Daninhas Lenhosas e Semilenhosas

Nesta segunda, 10, o Giro do Boi levou ao ar uma edição especial de lançamento de uma tecnologia que irá ajudar os pecuaristas no combate das chamadas “pragas duras”, como são popularmente conhecidas as plantas daninhas lenhosas e semilenhosas.

Em um dos blocos dos especial, foram ao ar entrevistas feitas com dois produtores do estado do Tocantins, o pecuarista Ricardo José de Andrade, da Fazenda Vale do Boi, de Carmolândia-TO, e o pecuarista Wagner Martins Borges, da Fazenda Nova Guia, em Araguanã-TO, que também tem propriedade na região de Ananás-TO.

“Nós somos preocupados em trabalhar com produtividade, e produtividade passa por combater eventuais problemas e pragas que existem na propriedade. As plantas daninhas, principalmente de folhas largas, são um problema para a região. Ao longo do tempo a gente vem utilizando produtos que nos auxiliam a isso e a chegada de novas tecnologias vem ao encontro daquilo que a gente que precisa. O produto certo para tratar da praga que a gente quer combater”, afirmou Ricardo. “Hoje com essa tecnologia, de um produto que combate mais as pragas lenhosas, aí seria a cereja do bolo, porque elas são aquelas que tinham um combate com maior dificuldade, e hoje passamos a ter mais facilidade. Então esses novos produtos vêm ajudar a gente sensivelmente no trabalho do dia a dia da fazenda”, ressaltou.

Ricardo também destacou a sustentabilidade do produto, classificado como “faixa verde” pela Anvisa, (Agência Nacional de Vigilância Sanitária): das quatro faixas de classificação estabelecidas pela agência para produtos da categoria, a nova linha foi enquadrada no menor nível de impactos para os aplicadores e para o meio ambiente. “É tudo aquilo que a gente procura. Produtos que tragam benefício, uma melhoria da produtividade, sem agressão, porque hoje é a pauta, proteger o meio ambiente, e nossa preocupação também é não atrapalhar os nossos colaboradores. Isso faz parte do contexto, pensar em aumento de produtividade, que passa pela utilização das novas tecnologias, correção de solo, adubação, preocupação com os animais, com o meio ambiente, manejo racional, tudo isso é fundamental para ter uma pecuária lucrativa, competitiva. É tudo aquilo que meu pai sempre almejou, trabalhou e nós fazemos isso na Fazenda Vale do Boi”, disse o pecuarista em referência ao seu pai, Epaminondas de Andrade.

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Já Wagner Borges destacou o problema da competição das pastagens com as plantas daninhas. “A infestação das pragas daninhas é um problema sério, porque tem a competição com o capim. Quanto mais pragas daninhas, menos produtividade, que reflete em menos lucratividade. Para a gente é menos ganho de peso, menos lotação da pastagem. Isso é realmente um problema sério para a pastagem. E nossa região é mesmo propícia para o desenvolvimento de plantas daninhas, tem a questão da umidade, do tempo, é muito úmido e quente”, salientou.

Wagner listou ainda as plantas daninhas que mais infestam as suas pastagens. “Além das pragas moles, ainda tem as de folhas lisas, folhas largas, que são um problema sério. A gente não tinha ainda um produto específico para combater os cipós, as pragas mais duras. E agora com esse novo produto a gente tem esperança de ter um bom combate para estas pragas”, admitiu.

fonte: www.girodoboi.com.br/videos/pecuaristas-do-tocantins-aprovam-novo-defensivo-que-controla-plantas-daninhas-lenhosas-e-semilenhosas/

tv.uol/17OHG

Propriedade no norte do estado investe em sistema de abastecimento para o gado

Propriedade no norte do estado investe em sistema de abastecimento para o gado;

http://g1.globo.com/to/tocantins/jornal-do-campo/videos/v/propriedade-no-norte-do-estado-investe-em-sistema-de-abastecimento-para-o-gado-acompanhe/6266540/

https://globoplay.globo.com/v/6266540/

Assista #JornalDoCampoTO pelo #GloboPlay https://globoplay.globo.com/v/6266540/?utm_source=twitter&utm_medium=share-player-desktop

Vale do Boi entre os top 30 maiores vendedores de touros zebuínos

RevistaAG-capa jul/16
RevistaAG  jul/16

A Vale do boi aparece entre os 30 maiores vendedores de touros zebuínos no Brasil, em 2016, segundo a revista AG.

RevistaAG-ranking jul/16

O TOP 100 – Os maiores vendedores de touros do Brasil nasce para investigar quem são as fazendas que dão o tom do melhoramento genético de bovinos. Como visto na edição de junho, o censo foi subdividido entre os 50 maiores vendedores de taurinos e os 50 maiores de zebuínos, destaque desta edição. Foi feito dessa forma para que o segundo grupo não segregasse a participação do primeiro, posto que o gado zebu é presença garantida em 80% do rebanho nacional.

Por que touros? Pelo fato de essa categoria ser responsável pela multiplicação de genética. No Brasil, 90%ou mais da vacada é coberta por touros. Um touro cobre de 30 a 40 vacas em apenas uma estação e a vaca, por melhor e mais precoce que seja, é capaz de produzir no máximo um bezerro por ano. Alternando o quadro para a inseminação artificial, os números só aumentam. Touros com médias excepcionais de produção podem bater a marca de 600 doses por ejaculado, suficientes para gerar 300 bezerros. Ou seja, o touro é o propulsor da carne de qualidade no Brasil.